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 A água e o Sagrado

Na linguagem poética de Génisis Deus ordenou, no 2º dia da criação , quer as águas se separassem do caos original e assim surgiu o firmamento ou céu para dividir as água que ficavam acima do céu ou debaixo do céu.
Na voz do povo maantêm-se ressaibos desta dicotomia e a atitude científica vive de par com o discurso cosmogónico que olha o céu como o lugar donde cai a chuva, a água que é o fundamento de toda a vida sobre a terra. E esta separação de águas amplia-se aínda ao quadro daqueles que simplesmente se ordenaram à conservação da vida dos homens e dessas outras pessoas que voltam a partilhar do sagrado e se tornam, através do ritual, instrumento de ligação do homem à divindade.
Acto maior onde se revela de forma exemplar a simbologia natural da água como fonte da vida e fonte de limpeza é o baptismo, assumindo a água, através de Cristo, uma significação e uma eficácia nova. É a agua lustral onde, nas cerimónias de Quinta-Feira Santa se mergulhavam os neófitos que um segundo nascimento trazia ao grémio da verdadeira igreja.

Na celebração da Eucaristia, a água assume outra vez a função purificadora enquanto utilizada pelo sacerdote para lavar as mãos mas ela associa-se ali ainda ao vinho assumido, no ritual, outra natureza divina aqui.
A água benta abundantemente oferecida em pias de pedra às portas das igrejas cumpria um ritual de purificação com eficácia segura para os pecados veniais e as palavras que deveria pronunciar quem a utilizava revelavam a sua força simbólica vivencial e salvífica.
A água benta era utilizada em múltipla cerimónias litúrgicas, transportada numa caldeirinha e aspergia com o

bissope homens, coisas e animais cumprindo sempre, o rito, funções purificadoras.
Outro momento em que a água benta fica presente, sacralizando por um tempo, um lugar, é esse tempo de velar o cadáver que permanece em casa. A família traz da igreja a caldeirinha ou enche numa das pias de água benta um jarro ou grande copo de vidro, mergulha nele um raminho e coloca-o à cabeceira para que todo aquele que entrar possa aspergir por três vezes, conforme acontecia no mundo greco-romano, o corpo do defunto.
Se a desgraça acontecia na aldeia na forma de um incêndio, fogo, diz-se na aldeia, gerado na noite ou mesmo durante o dia e uma habitação ficasse ameaçada o sino tocava a rebate e o povo inteiro acorria e formava-se um vai-vem de gente entre as fontes, os poços e a casa para debelar o incêndio, numa atitude de solidariedade gratuita.
A água está presente noutro espaço em que o sagrado e o mágico se entrecruzavam. Mas agora é a interdição do uso de água que está em jogo como se o seu uso nesse determinado momento fosse responsável pela desordem que instauraria.
Assim acontece com a proibição de ir à fonte durante a noite ou de despejar águas para a rua ou para os pátios, durante a noite, tornando-se como justificação total o receio de que caia sobre as "alminhas" que vagueiam pedindo orações para o sseu repouso.
Outro registo de manifestação do sagrado neste extenso universo da água, prende-se com as próprias nascentes que *as vezes se tornam possuidoras de virtudes raras, se tornam "águas santas", verdadeiros instrumentos de potenciais milagres.
A escassez de água foi decerto a principal razão para que apenas o topónimo se tivesse mantido e a envolvência do sagrado mal tivesse aflorado.
A Fonte de S. Pedro na meia encosta da serra sobranceira a NE das Arnas, junto à capela setecentista de S. Pedro é conhecida desde o século XVIII como uma fonte milagrosa.
Em 1758 o cura que respondeu ao questionário que originou as ditas memórias Paroquiais referiu-se a uma pequena fonte, pouco maior que duas mãos abertas em concha. Estava cavada numa rocha gigantesca e nunca a água faltava na mesma, Inverno ou verão, por mais quente que fosse, por mais que secassem todas as fontes. Por milagre havia a impossibilidade de alargar, a pico de pedreiro, o reservatório, que o pico se partia à primeira tentativa. Ali vinhham os aldeões tmá-la em copinhos, para curar maleitas e levavam-na para casa em frascos de vidro, como remédio.
Hoje a fontesinha de S. Pedro mantém-se, cavada sobre a grande rocha onde uma longa fenda que atravessa a covinha explica a origem da água chegada das profundezas. Mas no dia de S. Pedro, pela manhã, há gente que procura a a fonte e banha o rosto ou leva um frasquinho para casa, remédio de ohos doentes, remédio de outras doenças, esta "água santa" que nehuma manipulação fez ir mais longe que os termos das Arnas.

 

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