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                                                                                            A Fonte
 
A fonte é quase um lugar mágico, um espaço mítico. Todas as fontes e mais ainda a fonte inserida no tecido urbano da aldeia. Mais que lugar poético: Mesmo que na aparente frivolidade dos dias a mulher apenas repare no cântaro vazio e no cansaço dos braços que o voltarão a encher e carregar.
A fonte mantém na aldeia, um lugar de centralidade, de referência, de prestígio. Fica no adro, fica no largo que não raramente se torna o Lugar da Fonte.

É um lugar de retorno obrigatório em cada dia. De manhã e ao fim da tarde. É lugar de encontro. Da mulher. Quase só da mulher. Mesmo no imaginário moço que a faz encontro de namorados. É um lugar de demora, mas de um tempo medido pelo cair da água que por sua vez a estação governa. E lugar de confidência. Lugar de notícia.

No tanque para onde a água se despeja bebem os animais que passam para o trabalho. O gado da aldeia inteira. E as águas que sobram pertencem ainda à comunidade mesmo que se percam num rego de Inverno.
É também lugar proibido na noite.

A fonte, é de todo, um espaço construído também. As mais antigas recordam o esforço de velhas instituições comunitárias. As mais recentes ilustram com datas e inscrições o novo construtor - Junta de Freguesia ou Câmara municipal.
No concelho de Sernancelhe existe um singular conjunto de fontes, algumas marcadas de grande antiguidade, como a fonte românico-gótica de Fonte Arcada, que teria originado o designativo da povoação.

Morfologicamente as primeiras fontes começaram por ser o tanque que se enchia com a água da nascente, Protegido por uma parede e um chão de lages para manter a limpidez foi mais tarde coberto de abóbada mais ingénua ou mais elaborada. Existem algumas destas fontes, ditas de mergulho ou de chafurdo, cuja gramática construtiva se situa num tempo longo que irá da idade média ao século XVIII.

As mais antigas são as de Fonte Arcada e Ferreirim, a primeira talvez do século XIV, a segunda atribuível ao século XVI, é considerada já monumento de interesse concelhio dada a sua exemplaridade.

Mais recentemente não ultrapassando o século XVII existem duas fontes na Vila, uma delas de arcaturas gémeas, à Ponte do Rio e uma na Vla da Ponte, outra na Tabosa, no Granjal, nas Arnas, em Chosendo, em Escurquela.

Muitas continuam abundantes de águas que se perdem nos campos, e nem todas mereceram hoje a atenção que deve dar-se aos velhos monumentos que documentam o modo de viver dos homens das gerações precedentes.

Há um outro grupo de fontes mais recentes, dos séculos XVIII e XIX, menos obedientes a uma gramática construtiva e fontes erguidas no século XX, demarcando épocas de esforço construtivo que sociologicamente se prendia ao interesse do Estado manifesto em relação à população que o garantia.

Os anos 80 marcam um último interesse pela construção de fontanários de limitadas dimensões quando se generalizava já o abastecimento domiciliário de águas a toda a comunidade.

 

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