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                                                                            2. As águas de rega
 
Até aos anos 60 a economia do concelho assentava basicamente na agricultura. A produção cerealífera equilibrava-se com a batata e outros produtos hortícolas. A vinha e o castanheiro desempenhavam ainda um papel de relevo.

As águas da chuva se caíam na estação própria e com a abundância requerida eram, em parte, garantia de boas colheitas. Todavia, a ausência quase total de pluviosidade nos três meses de Junho a Setembro definidos deste modo com grande estação seca, exigia o recurso às águas existentes nas propriedades de cada um ou de posse comunitária e esta habitual escassez sazonal definira tradicionalmente determinadas normas de direito.

As águas do rio Távora e ribeiros seus afluentes, são fortemente aproveitadas para águas de rega mediante a construção de pequenas represas e açudes que, elevando o nível do seu curso lhes permite chegar a locais distantes.
Esta prática ancestral está bem testemunhada na Vila da Ponte com os restos dum açude que provavelmente remontará aos séculos XVI ou XVII.

Nos pequenos ribeiros ou junto de mães-de-água abundantes as águas que durante o Inverno correm livremente, muitas vezes aproveitadas com água de lima para alimentar lameiros, são no Verão rigorosamente aproveitadas através do levantamento de uma presa, aliás todos os anos refeita depois dos estragos causados pela invernia, nos inícios do mês

de Junho, por um conjunto de proprietários organizados como consortes.

Há um outro tipo de distribuição de água de rega que assume foros comunitários tão característicos que Aquilino Ribeiro descreveu brevemente numa das suas crónicas (Ribeiro: 1964):
Comunal em essência e direito é a água de rega, artigo de primeira nestas terrinhas altas e vãs, atormentadas pela seca, onde a maior percentagem de mortes e barulhos tem seu teatro à beira da poça ou dos talhadoiros de regar. (…)No verão a água junta-se em poçada e vai servindo cultivador e cultivador, sucessivamente. Um homem nomeado pela junta, em regra pessoa que pelo seu carácter dê garantias de equidade, tem a cargo repartir a água (…) O seu papel não é fácil nem cómodo.

Determinadas nascentes dos termos da aldeia são consideradas propriedade comunal ainda que as suas águas não possam regar senão os campos dos proprietários situados a jusante.

Todos os anos, no mês de Junho são refeitos os paredões das represas destas águas bem como reparado o grande rego que muitas vezes conduz a água desde grande distância.

Segundo usos de um calendário antigo, por altura do S. João é escolhido um homem para redistribuir por todos os cantos que possam ser atingidos as águas represadas.

Esta escolha é algumas vezes feita pela Junta de Freguesia, que em determinada altura se deve ter apropriado deste direito, noutros casos a escolha realiza-se sob fórmulas

de uma prática mais ancestral em reunião dos proprietários convocados pelo sino, para o largo da Igreja, numa tarde de Domingo.
O homem escolhido é sempre pequeno proprietário ou tão só rendeiro. É designado por louvado nalgumas aldeias (Sarzeda, Ferreirim, Cunha) por repartidor noutras (Granjal, Quintela).
Incube-lhe abrir a presa em cada madrugada, vigiar o rego para que a água não se perca e deve convocar os proprietários das terras segundo a disponibilidade da água. Ao fim da tarde tapará a presa.
Esta tarefa encerra-se habitualmente a 24 de Agosto (festa de S. Bartolomeu) podendo às vezes ser prolongada até 16 de Setembro (festa de Stª Eufémia) quando as águas não se esgotam antes.
A remuneração deste trabalho diferencia-se também, indo da simples honorabilidade, o que acarretava alguma penosidade (ganhava inimizades), ao estabelecimento dum salário.
Este era o cálculo com valores pagos por um dia de trabalho.
Era então estabelecido entre os proprietários um determinado preço por cada hora de rega e desse montante retirava o louvado ou repartidor seu quinhão, revertendo o eventual excesso para a Junta de Freguesia.

Como complemento desta remuneração, o louvado tinha direito a utilizar a água da presa no Domingo, vendendo-a então em seu proveito.
A utilização da nora era extremamente limitada no concelho. Existem exemplares fora de funcionamento na Sarzeda, Vila da Ponte e Sernancelhe.
Outros sistemas, de reduzido rendimento, eram aplicados ainda.
O poço doméstico aberto empiricamente em zonas de suposta nascente ou aberto de acordo com indicações do vedor chamado para o efeito, era o recurso mais frequente. Nestes casos a água retirava-se mediante o uso do burro, engenho provindo da tradição árabe, eficaz, mas penoso e demorado.
O esgravano, vulgar cabaço de outras regiões, grande depósito circular munido de cabo de madeira que se
adquiria na feira aos latoeiros, era também utilizado em pequenos poços, presas ou ribeiros.
Nos anos 50 introduziram-se, como melhoramento técnico significativo, os pequenos motores de rega que diminuiriam esforços e maximizaram o rendimento ampliando-se seguidamente os recursos tecnológicos através da introdução de motores mais potentes, de canalizações exteriores que evitavam perdas, de grandes reservatórios que facilitavam a distribuição.
Estas obras de hidráulica passaram a realizar-se sobretudo nos anos 80, mercê do empenhamento autárquico reforçado pelo poder central através de órgãos próprios.
 

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