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A acção dos jesuitas - os judeus
 
O tempo foi passando e, cerca de 70 anos depois, no último quartel do século XVI, a Lapa foi entregue aos Jesuítas e estes tomaram conta do local e edificaram então o vasto espaço de crença e romagem. É deles a organização do extenso terreiro: a capela seicentista a nascente, a mole do antigo colégio, agora vazio e construções anexas.

Gestores do espaço sagrado, das rendas recebidas, decidem-se ali a formar almas e mentes, na pessoa dos infantes da terra augusta.

Possivelmente os jesuitas na Lapa procuraram criaturas a quem "adoçar aquele (seu) natural montesinho  bravio e rude e transformá-las em "curas e mestres de seus naturais" e seus compatriotas. Tal política tinha a sua razão de ser: porque não havia dúvida que tais criaturas estariam mais à vontade de empregar e fazer obras com os seus parentes e trabalhar os penedos que conheciam por pátria, sem medo às neves e rigores a que os estranhos se afastavam.

Em conclusão: se não fossem os jesuitas, a Senhora da Lapa e o ermo então construído não haveria concerteza a imensidão de vidas humanas que hoje lhe aflui, sobretudo em 15 de Agosto.
Frade Bento refere: Ali está a Virgem Sagrada como em oficina própria, lavrando os olhos
milagrosos para dar aos cegos, que com devoção lhos pedem. Ali fabrica línguas milagrosas, para os mudos a quem dá fala. Ali restaura vidas perdidas, que dá milagrosamente aos mortos que ressuscita...   E é quanto baste para caracterizar esta "oficina de maravilhas"...

O encanto do templo, e de visita devota é a lapa, uma profunda gruta que guarda a pequenina imagem da senhora. Os penedos envolventes da lage foram desbastados pelos mestres jesuítas, aproveitando o granito arrancado para cantaria e alvenaria, tornando mais libertas e mais sós as fragas que formavam a gruta.

A lapa foi depois envolvida por muros e colocado telhado ficando ela por altar-mor. No interior da gruta, ainda, o Menino, de chapelão e a casaca de Setecentos. Tal chapéu de moço fidalgo, mas muito incómodo, pois que, por causa dele nunca pode a divina criatura usar uns dois diademas cravejados de pedras que os pagadores lhe ofereceram.
Este "Menino Jesus da Lapa", feito "pastorinho" pela sua "ovelha", objecto de quadra chã, não haveria de desdenhar das cultas lérias que lhe dedicavam outras romeiras menos pastorinhas.
Como há-de ser a enamorada autora desta amoruda romança: "Menino da Lapa - tanto meu amigo - foi-se ao outro dia - sem falar comigo -- Lá leva consigo - as minhas saudades; - como passarei - cá por estes vales?"

Mas há que informar da existência dos "judeus" do templo, ou seja, dos soldados romanos que - Cristo crucificado presente - deitaram dados sobre os seus vestidos.

Três soldados e um civil figuram no altar lateral, do lado norte da igreja. O painel esculpido e interpretado pela devoção local motivou o crisma dos habitantes da Lapa, distinguindo-os dos vizinhos de Quintela, por fazê-los "judeus". "Vamos aos judeus!", diz a vizinhança. Como quem diz: «Ora vamos lá à Lapa!».

Todavia a alcunha não parece ter preocupado muito os Lapenses. Em pleno recinto do Santuário encontramos publicidade a a um restaurante, entre Quintela e Lapa, cujo proprietário é da Lapa,
com o seguinte título: JUDEU, restaurante e churrascaria....


Há poucos anos atrás e a propósito da sede da junta de freguesia da Lapa ser Quintela da Lapa, um célebre pregador e catequista, o Cónego Mário Cardoso, entrou em dilema com uma pequena jovem de Quintela, que hoje é freira no recinto, afirmando aquele que a sede deveria ser na Lapa, e pequena de Quintela num tom irónico, afirma, reafirma e recalca que a freguesia foi e há-de ser sempre Quintela...

 

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