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Fonte Arcada
 
Um outro centro histórico do concelho é Fonte Arcada, que lhe vem o nome da fonte em arco ogival que se encontra no sítio da Toca da Moura, evocando a filha de árabes que ali se esconde, lacrimeja a sua triste sina e guarda fabulosos tesouros, consoante a lenda em que muitos fazem fé. Fernando C. Quintais, afirma que “o nome de Fonte Arcada contém na sua estrutura uma espécie de chave cifrada, na melhor tradição da alquimia espiritual da Idade Média, que recebe o seu influxo de outras civilizações, mais remotas como as do Egipto e da Babilónia”.
E acrescenta que “é fonte de vida, pela água, e é Arca(da), isto é, oculta um mistério, tal com a Arca da Aliança”.
 Efectivamente o local é convidativo em termos de reflexão espiritual e da elucubração poética.

O monumento, que é do século XII ou mesmo do seguinte, de arco apontado e de abóbada tradosada, sobrepõe-se certamente a outro de maior antiguidade que, em tempos mais remotos, terá acompanhado o alvor e desenvolvimento desta antiga vila.

O largo da fonte é sombreado por nogueiras e castanheiros e é assoberbado por cômoros arrelvados que se sucedem, de modo que se forma ali um agradável espaço adosselado.

O monte do Castelo que nem é monte nem tem castelo, exibe uma pequena eminência saliente coroada e cintada de verdura, onde se levanta a torre do Relógio, que, alterando-se acima do povoado, o parece dominar.
Mas a mole compacta e desalinhada da sua casaria de tipo regional, com um tom misto de cinza e amarelo, assenta uma larga depressão, a poente, aos pés duma encosta acidentada e sobrepõe-se ao Távora que passa lá ao fundo na mansidão ronceira de quem tem preguiça de caminhar.

Uma extensa garganta de hortas e campos verdejantes, ladeada por onduladas encostas encobertas de vegetação arbórea e arbustiva, forma a almofada declivosa que separa o povoado da riba do rio.

Do alto da Senhora da Saúde vislumbra-se um panorama ao mesmo tempo soberbo, e entrecortado de montes e vales, estradas e casaria, verde e agreste, cerros e pradarias. É a zona da Lapa, de Caria, de Cabaços e S. Torcato, do Monte Gordo, das Fontaínhas…

Não é povoação serrana que alguns pretenderam descrever em tempos idos. Dentro do seu antigo alfoz,
 
Escurquela e Macieira estão em lugares mais agrestes; Ferreirim e Freixinho repousam e desenrolam-se em assentos mais amenos.
Topam-se sepulturas antropomórficas no Marmeleiro e no Verdogal.
Sendo uma terra de remotas tradições, não possui, apesar de tudo, no entender do insigne Abade Vasco Moreira, vestígios arqueológicos que permitam colocar-lhe a origem para lá dos tempos proto-históricos. Existia no período de ocupação Muçulmana, em que sofreu devastação e ruína, de que ressurgiu por acção reconstrutora de D. Sancha Vermuiz, dama nobre e rica, que viuvou de um opulento e abastado fidalgo de Entre Douro e Minho. Foi ela e seus filhos quem, no reinado de D. Sancho I, lhe deu foral em 1193, ficando a localidade com o estatuto de Vila e Concelho.
Os autores que optam pelo ano de 1231 para a localização temporal da carta de foral, estão possivelmente a cingir-se à época de César.

Certo é que já no século X, mais propriamente em 960, o testamento de D. Flâmula a menciona, crendo-se que Fonte Arcada tenha depois sido honra de Egas Moniz e sua mulher, dos quais passou para honra de Soeiro Viegas, que a doou a sua mulher e sua mulher a D. Sancha Vermuiz.
Mas, já em 1179, é referida a sua existência, pois nessa data Egas Gonçalves legou bens à Sé de Lamego, sendo Bispo D. Godinho Afonso.

Foi senhor de Fonte Arcada Fernão ou Fernando Sanches, o predilecto filho bastardo de D. Dinis, a quem este seu pai a

doou,  em 1239, com outras terras confiscadas, ainda no reinado de D. Afonso II, a Pedro Anes, almoxarife em Lisboa. Por isso, é que D. Dinis autorizou, em 1297, a troca da Igreja de Fonte Arcada, dos monges de Salzedas, pela de S. Pedro de Tarouca, que antes era de Fernão Sanches.
Por morte do bastardo de D. Dinis, sem descendência, vagou Fonte Arcada em favor da Coroa. Terá, entretanto, sido seu Senhor o Infante D. João filho de D. Pedro I e de D. Inês de Castro. Em 1401, D. João I, deu-a a Gonçalo Vaz Coutinho, alcaide-mor de Trancoso e Senhor de Leomil. Encontra-se, em 1470, na posse de D. Francisco Coutinho, sei descendente. Foi D. Afonso V, o Africano, que lha deu, em Santarém, juntamente com Sernancelhe, em 20 de Maio, em reconhecimento pelos serviços prestados em África por seu pai e seu tio.  Passou por herança a ser perteço de D. Fernando, filho de D. Manuel II e da Rainha D. Maria por se haver matrimoniado com a menina sem dote. D. Guimar, filha do Conde de Marialva. Mais tarde, passou para a família dos Castros, Foi seu quinto Senhor um deles, D. Álvaro Fernandes de Castro, filho de D. João de Castro, quarto vice-rei da Índia. D, Pedro II elevou Fonte-Arcada à categoria de Viscondado, cabendo a posse da mesma e o título de visconde (com a promessa do título de conde, promessa que nunca foi cumprida) a Pedro Jacques de Magalhães, que derrotara heroicamente o conde de Ossuna na batalha de

Castelo Rodrigo.  O viscondado e o título de visconde extinguiram-se com o quarto visconde de Fonte Arcada Pedro Jacques.
Além dos funcionários municipais – Juiz, Escrivão, Tabelião e Almotacéis – tinha, no tempo de D. João V, Capitão-mor, Sargento-mor e duas companhias de ordenanças.

Em termos do ofício e do benefício eclesiástico, era tão importante esta freguesia que chegou a ter por abade, em 1385, durante o episcopado de D. Lourenço, a Fernão Martins, cónego da Sé de Lamego e sobrinho do Bispo D. Durão (ou Durando).

O núcleo urbano antigo, de imponência singular e de invulgar vetustez, dá a esta localidade o arcaboiço de aldeia-museu e contrasta bem com o rol de construções que a modernidade, secundada pela corrente migratória acrescentou à malha residencial.

 Tem, pois, a zona antiga a morgologia de um reticulado homogéneo em instalações de meia encosta. Releva um casario típico de granito amarelado de boa cantaria, onde contrastam harmonicamente maciços balcões de pedra com airosas varandas de madeira.
Apesar de haverem entrado em acentuado declínio as velhas casas solarengas, esta freguesia atingiu alto grau de prosperidade, como atestam ainda os vestígios patentes em seus monumentos e solares.

Albergou dentro de seus muros gente da mais alta estirpe, como os Coutinhos, Coraças e Gouveias, como pode orgulhar-se de ter acolhido sob os seus tectos o fundador da Nacionalidade, que, bem perto e dentro do seu termo, nas margens do Távora, derrotou os mouros – vitória que resultou por voto do rei a fundação do Mosteiro de S. João de Tarouca.

Os limites do concelho de Fonte-Arcada eram os das actuais localidades de Sernancelhe, Caria, Tabuaço e S. João da Pesqueira. O concelho, que manteve a sua autonomia por sete séculos, compreendia as freguesias de Fonte-Arcada (a sede), a de Freixinho, a de Ferreirim (que chegou a denominar-se Ferreirim de Fonte Arcada), a de Macieira, a de Escurquela, a de Chosendo e a de Vilar. Chegou a incorporar, se bem que por

pouco tempo, a vila de Guilheiro.
Atingiu o apogeu da importância política e social no século XVII. Foi nessa altura que se levantaram os melhores solares e se repararam, recuperaram ou redimensionaram os seus monumentos de origem românica. A fonte, a igreja, a ponte, a casa do Paço…

O concelho foi extinto em 24 de Outubro de 1855, por obra da reforma administrativa do liberalismo, perdendo Fonte arcada a categoria de vila e de sede do concelho. Passou a integrar, primeiro o município de  Trancoso, e depois, como todas as suas freguesias, excepto a do Vilar (que se agregou a Moimenta da Beira), o município de Sernancelhe, como actualmente.

Refere o Abade Vasco Moreira que o segredo da prosperidade desta vila reside na sua autonomia administrativa, na boa administração ao seu município e na fecundidade e riqueza do solo que, através do trabalho persistente, lhe dá aquilo de que mais precisa para a subsistência e para o desenvolvimento.

Dando uma volta auto-instrutiva pelo aglomerado populacional, encontramos várias curiosidades:

O solar dos Condes da Azenha, de torres quinhentistas, sobranceiro ao largo que se designa impropriamente de adro, mantém as sua armas num pórtico já descaracterizado, não se vislumbrando mais nada do que poderia atestar a rota da antiguidade. Nem a Casa das Couraças nem a Casa dos Brigadeiros (esta com a peculiaridade do pórtico imponente, com brasão de família, ladeado de muros com ameias), reflectem com suficiência a grandeza do passado.
O pelourinho de Fonte Arcada, em acanhada praça de hoje, é o símbolo da identidade municipal da autarquia que ganhou poder e o alimentou até ao advento do liberalismo e perdura qual testemunha qualificada e eloquente da importância histórica e política da terra que foi anos e anos sede de um notável município beirão ao qual o foral de 1193, consignou as liberdades de estilo e impôs as obrigações adequadas.

A Torre do Relógio, doinarosa torre sineira, no alto do cerro do castelo, remomora o último quartel do século XVI e as assembleias de notáveis que se desenrolavam na casa da câmara, quando o sino daquele campanário convocava, tangendo e sonando.

Uma das mais típicas edificações de Fonte Arcada e redondezas é a Casa do Paço ou Casa da Loba como é vulgarmente denominada e conhecida.

Do paço, por ter sido de D. Fernando; da loba, devido ao busto de  cachorro ou loba que ostenta na frontaria, Fantasmagórica volumetria granítica, erecta entre a Praça do Pelourinho e o Largo da Igreja, é obra do século XIII e propriedade de Fernão Sanches, o já mencionado filho bastardo que foi de D. Dinis. Muitos outros senhores a possuíram e modificaram no século XVI e subsequentes. Serviu também de Casa da Câmara.
A Igreja Matriz é jóia de estimado valor, de fundação românica, mas com alterações ditadas pelo devir multissecular, espraia-se por três patamares desnivelados de sentido ascendente até à capela-mor.

Entre as muitas capelas, salienta-se a capela de Nossa Senhora da Saúde, centro de singular devoção, onde se destaca a romaria-festa no terceiro Domingo de Páscoa (segundo Domingo depois da Páscoa, de acordo com a nomenclatura anterior à reforma litúrgica do Concílio Vaticano II). A capela é de arquitectura muito simples, provavelmente da transição do século XVIII para o século XIX, mas reveste-se de enorme funcionalidade, quer para a romaria de exteror quer para a de interior a circundar ao altar-mor. O espaço envolvente é enorme.
A aldeia dispões de todas as infra-estruturas que a dotam de condições físicas e sociais que respeitam os parâmetros por onde modernamente se pauta a qualidade de vida, designadamente: água domiciliária, saneamento básico, electrificação

de casas e ruas, ruas drenadas e calcetadas, Centro Social e Paroquial (com apoio aos idosos e às crianças), sede de Junta de Freguesia, Jardim de Infância, Escola do 1º ciclo…
Mesmo assim e para que Fonte Arcada continue a pontificar, e com justo merecimento, - após a construção de uma sede de Junta de Freguesia muito funcional e arquitectonicamente bem enquadrada, a par de um confortável polidesportivo e com um Centro Social Paroquial a desenvolver com notória proficiência diversas valências de acção social – a Câmara Municipal de Sernancelhe encomendou atempadamente o Plano de Pormenor de Fonte Arcada. Este importante instrumento de planeamento e gestão já entrou em fase de execuçãp e vai guindar esta pitoresca aldeia, carregada de história e de antiguidade, a centro rural de um núcleo de freguesias com centro histórico, designadamente Fonte Arcada, Ferreirim e Freixinho.
     

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