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ÉPOCA ASTUR-LEONÊSA E ÉPOCA PORTUGUESA.

Vimos no capítulo precedente que, sob a domi­nação romana, o castro de Cernancelhe se teria dispersado com o regimen agrário da vila, estabelecido pe000los novos dominadores, que substituiu a antiga citama, embora sob a autoridade de alguém (dominus) que conservasse a unidade territorial; e que, sob esse regimen, a cultura rústica, até então limitada ao planalto dos montes, se adensou nos vales, constituindo-se durante ele os casos (casas) ou casulos (casais), as quintas ou quintaãs simples unidades culturais agrárias, dependentes da vila.

Vimos ainda que a invasão bárbara não alte­rou esse modo de ser cultural, pois que o governo dos visigodos até os marcos antigos (termini) da propriedade respeitou para melhor a tributar; e que os árabes, embora estabelecessem uma perturbação momentânea, entre os vencidos, com suas lutas e correrias, conservaram o fundo antigo: podendo, pois, dizer-se, dum modo geral, que Cernancelhe chegou à reconquista com o regimen implantado pelos romanos que, quási incólume, atravessou os períodos das convulsões de bárbaros e árabes.

Sob as armas cristãs a perturbação devia ser maior. Os chefes militares (reis) encorporavam na coroa as propriedades rústicas conquistadas, à ma­neira que iam avançando no campo inimigo; depois repartiam-nas pêlos nobres ou cavaleiros, conquanto deixassem as glebas agricultadas pelos ingenui na sua posse, mediante uma pensão. Dividindo os monarcas os bens reguengos, as vilas entraram a desmembrar-se. Esse desmembramento deu lugar ás chamadas hoje freguesias rurais.

A vila de Cernancelhe devia sentir o começo da sua fragmentação em 1054, quando foi libertada definitivamente pelo rei de Leão, Afonso Magno; o mesmo como devia ter sucedido ás suas vizinhas entre Douro e Vouga e a outras. Perdida a unidade económica da vila pela divisão do seu perímetro, come­çou a formação de novos agrupamentos distintos em volta de uma nova unidade—a Igreja—com os filii ecciesice ou filigrezes (fregueses) obedecendo à voz do pároco. Mas este desmembramento devia ser lento, e, por isso, não se lhe pode estabelecer hoje data precisa. O primeiro desses agrupamentos seria o de Cernancelhe. Os outros, que devem constituir hoje as freguesias do seu antigo alfoz, deviam ter aparecido em época posterior.

II

O período de transição do domínio Astur-Leonês, para a época propriamente portuguesa, em que se devia ter dado a última evolução que determinou a formação dos agrupamentos chamados hoje freguesias é muito obscuro; paira sobre ele um grande mistério. Tentar devassar esse mistério daria mui­tas páginas em que apareceria mais o produto da fantasia do que a verdade histórica.

Pinho Leal apresenta Cernancelhe, nesse período» despovoado e ermo, tão em ruínas que foi necessá­ria gente do Minho para o reconstruir. Mas labora em erro. A verdade é que, se a sua população não era intensa, não devia ser tão diminuta que a povoa­ção estivesse erma. É o que nos mostra a leitura acurada do seu Foral. Diz-nos ele que, em 1124, havia, em Cernancelhe, bois, cavalos, éguas, jumen­tos e gado lanígero; exerciam-se as indústrias da caça e da pesca e outros vários misteres, pois havia sapateiros, ferreiros, conqueiros, oleiros, caçadores, pescadores, e cultivava-se vinho, trigo, centeio, linho e muitos legumes. E havia ali já então cavaleiros, piões e besteiros.

Tudo isto nos dá a ideia duma organização social regular, e exige muita população. Desnecessária seria, pois, gente do Minho para erguer Cernancelhe das ruínas.

Em 1129, Cernancelhe tem senhor: é Egas Gozende descendente, segundo o P.e Carvalho, do ilustre Arnaldo de Baião, opulento fidalgo de Entre-Douro e Minho. Devia ter-lhe sido dada a povoa­ção pelo Conde D. Henrique, quando após a con­quista de Lamego, distribuiu as terras dos estados de Echa Martins pelos nobres da sua Casa, cabendo então a Egas Moniz todo o território entre Balse-mão e Távora; a Sancho Nunes, Tarouca; a Garcia Rodrigues e Paio Rodrigues, Leomil; a Sancha Ver-muiz ou Vermui, Fonte Arcada.

Na data referida (1124) Egas Gozende, ainda sob o governo de D. Tereza, concedeu a Cernance" lhe um Foral: «Placuit nobis pró bona pacis et voluntas ut faceremus a vobis homines de Cernonceli cariam qui hedificare et habitare volurit (1)». Parece pelo verbo da passagem transcrita do Foral—hedi­ficare — que esta povoação estaria em ruínas como quer Pinho Leal; mas edificare (edificar) deve refe­rir-se ao cascK (casas) de habitação como esclarece a palavra seguinte — habitare, ligada à anterior pela conjunção et, e não a erguer das ruínas. Em ruínas devia estar apenas o Castelo, o qual Egas Gozende mandou levantar, como diz o P.® Carvalho, logo que se empossou no senhorio da Povoação.

A letra do Foral de Egas Gozende mostra-nos que Cernancelhe além de senhor tinha já juíz, escolhido pelo povo —«quale possuerit concilio » e alcaide, igualmente de eleição popular—«quem vos volueritis.

Egas Gozende foi, pois, o primeiro senhor de Cernancelhe. Apesar de deixar filhos (o foral que concedeu é dado também em nome de seus filhos) não teve quem lhe sucedesse no domínio da Vila. Por sua morte, esta vagou para a Coroa; porque em 1158 o rei D. Afonso i concertou-se com os cernancelhenses, celebrando com eles um contrato pelo qual e, mediante o tributo de 200 libras anuais, esta terra não seria dada a senhor ou rico homem, mas ficaria sempre na Coroa.

Assim os habitantes de Cernancelhe se acaute­lavam contra abusos e imposições vexatórias que muitas outras terras do País sofreram e termina­ram, por vezes, com a intervenção real. Era a jurisprudência das cautelas. Mas, este contrato não foi respeitado, porque a Vila voltou a ter senhor ou donatário, como adiante se verá. Em 1220, quási um século volvido, ainda D. Afonso li confirma sem alterações o Foral dado a Cernancelhe: «cujus carie tenor in hac pagina verbum ad verbum... quod vobis ipse (Egas Gozende) dedit».

D. Manuel, em dez de Fevereiro de 1514, dá-lhe novo foral, o qual em nada alterou o anterior, introduzindo-lhe apenas modificações ligeiras, referentes a lavradores com bois a quem obriga a pagar qua­tro alqueires para a Coroa, um de trigo e dois de centeio; e a vinicultores os quais obriga a dar, tam­bém à Coroa, cinco amdes de vinho ao que colher vinte e cinco, não pagando mais nada por quantidade superior. E nenhum outro foral teve Cernancelhe. Com este diploma jurídico foi governado muitos anos, chegando a um alto grau de prosperidade, que poucas terras da sua categoria, na Beira Alta, alcançaram.

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