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e— Época Arábica 

O que atrás fica escrito, referente ao domínio dos Bárbaros, quási se podia repetir aqui com verdade a propósito dos Árabes:

a influência destes em terras do Concelho foi quási nula; as causas dessa apagada influência é que são diversas das dos Visigodos. Vejamos:

Depois da batalha do Crisos ou Guadalete (Julho, 711), os Árabes estenderam-se, em pouco tempo, por toda a Península. Sabe-se que Musa, em 712, já se achava na Galiza. Ê de crer que, nesse ano, Cernancelhe que fica para o sul quási sobro o Douro, sofresse o peso do jugo dos mussulmanos. Mas, o seu cativeiro não devia ter sido longo. Com efeito, Pelágio levantara, em 719, nas rochas das Astúrias, o pendão de guerra contra os invasores;

e Afonso i, em 757, já pôde expulsá-los para o sul do Douro, levando-os de vencida até Viseu, a ava­liar pela leitura da lista das trinta e uma cidades que ele tomou, mencionadas no Cronicon Sebastiani. Por isso, Cernancelhe, que fica entre Douro e Viseu, teria já então sido libertado do jugo árabe. Mas, como Afonso l não pudera manter inalteráveis a? fronteiras do seu domínio até Viseu, porque estas oscilavam como um pêndulo, conforme as frequentes incursões dos árabes, Cernancelhe sofreria as con­sequências dessas incursões: uma vezes estaria na posse de cristãos, outras na dos inimigos. Sabe-se, porém, que antes de 960 esta terra está limpa de Árabes; porque nesta data o seu castelo se achava em poder de cristãos. Legara-o então D. Chama a um mosteiro de Guimarães para obras pias, com exclusão de fim que não fosse religioso — et in lai-cale ni/til transferri—juntamente com os de Caria, Meda, Numão, Longroiva, Penedono, Alcarva e outros (1) o que vem provar-nos que, não só Cernancelhe mas muitas outras povoações vizinhas, estavam limpas de mussulmanos.

Poderá objectar-se que os Árabes, sempre tole­rantes para com os cristãos, podiam ter deixado a D. Chama o castelo de Seniorzeli, dominando eles a povoação. É certo que, mediante tributo, em alguns locais os árabes deixavam os inimigos em posse de mosteiros, como sucedeu com o de Lorvão; e permi­tiam exercer actos de culto e usufruir propriedades;

mas o que não consta é que deixassem uma forta­leza nas mãos de cristãos, A dar-se tal exemplo, o de Cernancelhe seria o único.

Em 982 ou 985, vemos novamente Cernancelhe cair sob o domínio mussulmano. Por esse tempo con­quistou-o Almansor, valente general árabe, quando atravessou a Beira, victorioso, depois de tomar os castelos de Ceia, Viseu, Lamego, Tarouca, Mondim, Caria, Pêra, Aguiar e Trancoso. Mas a servidão ainda desta vez durou pouco. D. Fernando Magno, rei de Leão, em 1054, passando o Douro, perto de Sámora, entrou na Beira e tomou, entre outras for­talezas, a de Cernancelhe. Desde então nunca mais a antiga Seniorzeli viu tremular nos seus muros a bandeira dos infiéis. A aurora da libertação raiou para nunca mais se eclipsar.

Pelo que fica narrado, vemos que o domínio dos árabes em Cernancelhe não foi duradouro e teve longas intermitências. Ao contrário dos Roma­nos, os Agarenos não vincaram em terras do Conce­lho a sua personalidade, quási nada influindo no modo de ser social. Este, certamente, à data da reconquista, deveria ser o mesmo que estabelecera a cultura latina, não contando as alterações que sempre causam as convulsões resultantes das lutas entre invasores e invadidos. As frequentes conten­das em que os árabes se acharam envolvidos não os deixaram dedicar-se à administração local; por isso, não teriam imposto usos e costumes, não fun­daram povoações, não construíram monumentos, nem impuseram novos processos agrícolas que substituíssem os dos romanos. Em pouco alterariam o statu qzio ante. No Concelho não apareceram até hoje quaisquer vestígios de objectos árabes e nem sequer o onomástico e a toponímia locais registam uma palavra, um nome que nos recorde a sua pas­sagem nestas terras. De sorte que a Cernancelhe se pode aplicar o que Herculano escreveu acerca da região compreendida entre Douro e Vouga; e com razão porque nesta nesga fica situada esta povoa­ção: «...posto que no tempo de Almansor essa cinta voltasse ao poder sarraceno, os vestígios deste apa­garam-se aí de todo pela segunda reconquista, sem deixarem influência que alterasse a sociedade».

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