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 B—Época Próto-histórica

Desta época, com­preendida entre a anterior e a da dominação romana, que abrange parte da idade do ferro, já nos falam mais ou menos os autores, mas dum modo vago; e, quanto a Cernancelhe, nenhumas referencias pode­mos encontrar. Devemos, pois, socorrer-nos, neste estudo, somente dos monumentos da localidade.

Neste período aparecem pela primeira vez, na história, os Lusitanos. É natural que eles estancias­sem já também em Cernancelhe, ficando como fica este Concelho, senão no coração da Lusitânia, um pouco a nordeste.

Foram os Lusitanos, na antiguidade, o povo mais importante da hoje província da Beira Alta. Cernancelhe, quási no vértice dum alto monte e enquadrado na Lusitânia, não lhes podia ser indi­ferente, se eles costumavam habitar os legares mais altos, ordinariamente em montes insulados, rodeados de fossos naturais, ou ligados por um dos flan­cos a outro monte, onde a escalada era difícil. A esses lugares chamava-se castros, castelinhos, castelos, crastos, etc. Ora no monte do Castelo, na Vila de Cernancelhe, existiu um castro. Quem aí subir hoje lá encontra fragmentos de cerâmica grosseira, que só se pode atribuir a época anterior aos romanos, e dois pedaços de pano de muro, a norte e poente, que devem ser da época lusitana, segundo o seu sistema construtivo; porque o modo de junção das pedras (os ângulos em sentido vertical) era o usado pêlos lusitanos.

A tradição fixa o primitivo assento de Cernancelhe no local chamado Barreiro, distante da actual Vila dois escassos quilómetros. Mas, o primitivo assento de Cernancelhe devia ter sido o castro; o Barreiro seria antes uma sua dependência, desti­nada já a exploração agrícola, porque é um logar quási plano e sem defesa. O povo atribui-lhe origem mourisca, como ordinariamente faz a tudo o que lhe parece antiquado. Aí têm aparecido cacos grosseiros, pedaços de mós, volantes de fuso e festos da época lusitana.

Derivando as pesquisas de Cernancelhe para certos lugares do Concelho, têem sido encontrados objectos iguais nas Amas, no monte Muragos, na Faia e em Caria que também já pertenceram ao Concelho. Nesta ultima freguesia, numa garganta, que sobe para a Quinta da Boa Vista, do lado do norte, existe um pedaço de muro e, junto dele, apa­recem muitos fragmentos de cerâmica da época dos Lusitanos.

Em abono da arqueologia local há o argumento deduzido dos monumentos de freguesias circunvizi­nhas—Numão, Meda, Marialva, Trancoso, Aguiar, Moimenta (Sanfins e Leomil). No povo de Sanfins, ao nascente de Mondim e num monte sobranceiro a esta povoação, há um castro que já foi explorado;

lá se vêem ainda restos de casas e pedaços de mura­lha do sistema construtivo dos lusitanos. Apesar de na Beira Alta pouco se haverem explorado as estân­cias arqueológicas, têm aparecido, em muitos lugares, objectos arqueológicos que nos mostram que esta parte do País já devia ter sido muito habitada no tempo dos lusitanos; e, certamente, essa popula­ção já teria fornecido avultado contingente aos exércitos de Aníbal e Viriato, quando o primeiro invadiu a Itália e o segundo derrotou algumas legiões roma­nas nas lutas heróicas pela independência pátria.

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