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c — Época Romana

Consumada a conquista da Lusitânia (século i antes de Cristo) e encorporada esta no Império Romano, caíram os legares fortificados, alcandorados nos montes, em poder dos novos dominadores. Começou logo a dispersão dos castros o que muito concorreu para o povoamento dos vales, até então, no dizer de Osório (1), fechados por extensas selvas. O antigo castro de Cernancelhe, certamente ainda pequena estância de habitação e duma civilização muito rudimentar, devia ter sido ocupado pêlos Romanos, logo após a conquista do território local. Aí se estabeleceram pois e, por alguns séculos, mantiveram mais largo domínio. Vejamos as provas desse domínio.

O P.'3 Carvalho fala-nos dum castelo que os romanos ergueram em Cernancelhe — em lugar alto com o seu castelo (de que foi alcaide-mor o conde de Pontevel—"; Pinho Leal, igualmente constata a sua existência e dá-lhe três torres. A tradição está conforme com os autores, quanto à existência dum castelo. Que ele tinha mais do que uma torre ainda hoje ó confirma o povo:—vamos ás Torres e não à torre—diz a cada passo. Que existiu na época romana provam-no os restos das suas muralhas e os diferentes objectos de cerâmica aí encontrados — tijolos, cacos de bordo, tégulas, caneluras, etc. da mesma época (').

Mais. Os Romanos deixaram uma estrada em Cernancelhe. Partia da Povoação, da rua do Curral, por Entre-Vinhas, seguindo pela Veiga, Sarzeda, Guilheiro, Trancoso, até Almeida. Junto de Guilheiro ainda existe um pedaço dessa estrada a que o povo chama — Estrada Velha. Uma parte da de Cernancelhe mandou levantá-la meu avô materno, António Moreira para, com sua pedra, construir o caminho da Fonte. Algumas vezes me falou dela sem lhe ignorar a origem. Junto do Cemitério, num campo pertencente ao doutor António de Sobral, quando aí se procedia ao desaferro para a construção duma casa, apareceu um dolium, cheio de moedas de cobre da época dos romanos. Ainda em Cernancelhe e no referido lugar do Barreiro, têm aparecido mós, pedaços de colunas e muita cerâmica. No passado mês de Janeiro estive ali e, em diferentes campos, encontrei tijolos e cacos de bordo; num, porém, per­tencente à família Sobral, aparecem tantos fragmen­tos de cerâmica que, a pesarem-se, dariam muitas arrobas; e, num baixo cômoro, encontrei dois pesos que conservo.

Ao poente do ïávora, em freguesias que per­tencem ao Concelho e em outras que já lhe pertenceram e limítrofes, não se notam só fragmentos de cerâmica, pedras de mós e pesos; há mais: há inscrições, marcos miliários; e têm sido encontradas muitas moedas de prata e cobre: mais de prata. Assim, na Faia, junto da Igreja, à porta dum quintal, vi, ha pouco, pedaços de mós e a base dum marco miliário; na Quinta da Lagoa encontrei outro marco, quási inteiro, a servir de suporte do travejame duma varanda, com inscrição, mas inin­teligível. Pinho Leal (l) ainda no seu tempo a pode copiar quási na íntegra. Diz ela: «Consilio. Antiquo Caio Baq. Fortíssimo Caies. António... Ti... Filio...» No pedestal: «Bono. Reip. Nato». Em Vide, numa pedra que seria parte de outro marco e agora serve de silhar, na frontaria da capela do Espírito Santo, lê-se: «Bono Rep. Nato.» E na capela de S. Domingos, no logar do Prado:

«Victor. Marii. F. Heic. S: P. Jacet* que pode interpretar-se: Victor, filho de Mário, aqui sepultado, descança. Em Caria e Rua, em diferentes proprie­dades, encontrei, à superfície do solo, muitos fra­gmentos de cerâmica —tijolos, tégulas, canduras, etc.; e vi nas mãos de particulares muitas moedas de prata do tempo do Império. O sr. dr. José Augusto, da Rua, mostrou-me broches feitos dessas moedas, aparecidas no local; o meu amigo e colega sr. padre Lemos, abade de Caria, apresentou-me, entre outras, uma que tinha, dum lado a efígie do Imperador, e do outro uma alegoria: uma mulher alada, ladeada de dois ramos de carvalho, guiando o carro do triunfo. A maior parte das moedas que vi são peque­nas, côncavas (um pouco) dum lado; do outro con­vexas, com um pequeno rebordo, tendo uma efígie e a palavra Roma, no verso.

A toponímia regista algumas povoações com nomes latinos, as quais deviam ter sido fundadas pêlos Romanos, começando por quintas ou colónias. Ha no Concelho: Quintas, Quintas de Baixo, Quin­tas de Cima, Quintas de Paulo Lopes (de Quintaã, segundo CarnuC); Quintela, de Quintanela (quinta pequena); Amas, de arenas (terras arenosas); Escurquela, de sculca (pequena); Seixo, de saxzim; Penso, de pensum. O próprio nome da Vila de Cernancelhe que no Foral é Cernanceli ou Cernonceli, parece genitivo duma palavra latina, no início vila ou quinta de Gernanceli ou Cernonceli.

O que acima fica exposto prova que o domínio dos Romanos, no Concelho, foi intenso; e demons­tra também que a acção dos novos dominadores não se limitou só a uma sujeição material dos vencidos;

foi mais longe: impôs-lhes a sua civilização. Os Roma­nos, ao entrarem violentamente na citânia ou cividade (Cernancelhe) deviam ter encontrado aí uma população brava e selvagem, mas aguerrida, alcan­dorada em alto monte, cercada de muralhas, vivendo mais a vida de pastores do que agricultores, usu­fruindo, em comum, as terras em volta; e impuzeram--lhe, como fizeram em outros logares, as suas leis, costumes, língua e religião, aplicando à propriedade o regimen latino da vila. Quer dizer, alargaram o estreito âmbito do castro, despedaçando os moldes antigos e implantando lá novos moldes. Este sistema agrário criou sub-unidades agrícolas que foram a origem de povoações que surgiram mais tarde. Os Romanos eram muito dados à agricultura a exem­plo dum seu rei que deixou o arado para empunhar o ceptro C). Pode dizer-se que Cernancelhe, em embrião com os Lusitanos, adquiriu nova forma e progrediu com os Romanos. É caso para se dizer:

«Ó felix dominium».

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