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" Aqueles lugares, incrustados na Serra da Nave, passaram a ser as Terras do Demo (...) São-no de facto? Suponho que sim, tanto pelo agreste do meio como pela vitalidade furiosa dos habitantes".

                                                                                        Aquilino Ribeiro
, in Abóboras no telhado, IV, 1995

  Para o bem e para o mal, certo é que em 1758, a Serra que ninguém deve pôr em causa ser de Leomil, chamava-se Serra da Nave. A resposta à primeira pergunta do inquérito enviado aos párocos, é claríssima a este respeito: "A Serra a meyas fraldas está a Villa de Leomil chamada a Nave". Segundo esta memória paroquial, a Serra teria de comprimento 1 légua grande, e de largura partia com Carapito de um lado, e com Alvite, do outro. No alto desta Serra nascia um regato chamado Nave "o qual corre do meio dia para a frente e fenece no Rio Baroza huma légoa distante de seu nascimento para a Vila Cham do Monte. E do meio dia para o nascente correm vários regatos sem nome os quais juntos com outros fazem um rio que se chama Tedo que fenece no Douro (...)".

Eleva-se esta interessante e graciosa Serra entre os Rios Paiva e Távora e pertence ao Maciço Galaico-Duriense. O seu ponto mais alto atinge os 1011 metros de altitude. É formada por ondulações com uma vegetação onde é visível o pinheiro, a giesta, a urze, o rosmaninho, o sargaço... é deveras muito agradável subir ao ponto mais alto desta Serra, uma vez que se nos depara a grandiosidade e beleza da paisagem que se alonga em todos os sentidos até aos Vales do Tedo, Paiva e Távora, até às cristas das serranias que se avolumam lá ao longe, como é o caso das Serras do Marão, da Estrela, do Caramulo e Montemuro.

  Algumas das fontes de água, formam pequenos regatos que deslizam até aos vales. Muitos deles, cruzam-se formando ribeiros que em tempos contribuíram para a rega das culturas e para os lameiros verdejantes a que se associam os pastos, e para o fabrico da farinha, no que diz respeito aos moinhos. De facto, parece que Leomil soube em tempos aproveitar a força da água. Dessa época subsistem ainda alguns moinhos arruinados, que denotam uma cadeira intensa de relações entre as populações.
  Da labuta nos campos nomeadamente as culturas do milho, do trigo e do centeio, seguia-se a transformação em farinha através do aproveitamento da força da água que deslizava desde as nascentes da Serra até aos vários moinhos e consequente arrematação em hasta pública no adro ou praça, dos fornos do povo para o fabrico do pão.

Chegando a Outubro, e feitas as colheitas, a Junta de Paróquia soltava a Serra. Por esta frase meio barbaresca, se entendia que acabava a defesa quanto ao matejar. A postura propunha-se então, não apenas vedar que os pobres, sempre sôfregos e com melhores pernas, chegassem mais cedo do que os ricos, isto é, "os que tinham uns alquierinhos a semear", se não antecipassem aos que tinham matos a cobrir, mas também, garantir que o mato não fosse devastado antes de atingir o seu perfeito desenvolvimento. Da mesma maneira que o moinho e o forno, certas lameiras de pascigo, e as águas de rega, necessitavam de uma boa distribuição para as quais a Junta de Paróquia nomeava um repartidor.

  As comunidades humanas, marcaram bem a sua presença desde os tempos mais remotos até à actualidade. Se recorrer-mos à cronologia, encontramos elementos desde a época neolítica até à actualidade. De achado em achado deparar-se-nos-ão muitos elementos arqueológicos de alguns dos povos que por ali passaram tais como caves, restos de estradas românicas, pedras amontoadas que indicam a presença de fortificações. Existem também um conjunto de mamoas que foram descobertas na Serra, embora já estejam parcialmente destruídas.
  Também Aquilino Ribeiro profere algumas palavras sobre esta riqueza arqueológica desta Serra que se insere nas "Terras do Demo" , nomeadamente em "Arcas Encoiradas", quando diz: " (...) atravessámos a Serra da Nave, subindo os cuvos por veredas em que só se podia passar a um de frente, e de que me lembrei mais tarde, quando vi nos quadros de Salvador Rosa os bandoleiros da Calábria dando salto de gamo por alcantis igualmente pitoresco mas para lá desse socalco pedregoso, no qual se descortinavam ainda ao rés do solo as asnelas de uma povoação primitiva, menos que citânia, mas decerto coeva e, orcas e várias sepulturas antropomórficas, entrávamos na Nave, palavra que em língua eucara parece significar planalto. Assim julgo eu, de Navas de Tolosa, Nave de Haver, etc. platibandas escoradas por contrafortes de rocha (...)"
  São interessantes os lugares da Lobagueira, Redondelo, Furenho, Gondomar, e especialmente o da Nave conhecido pelas grande superfície de terrenos de culturas e excelentes lameiros de pasto, assim como matagais. A Nave, situa-se entre Alvite, Almofala, Touro, Ariz, Peravelha e Carapito. Certo é que esta Serra foi muito importante para a comunidade de Leomil, forjando desde à muito uma identidade que marca toda esta região serrana.

Actualmente, ela aparece nos mapas, nas cartas militares, compêndios escolares e demais publicações, com o nome de Serra de Leomil. O bairrismo que os leomilenses sempre demonstraram, num orgulho e devoção à sua terra digno do maior apreço, leva-os a afirmar que aquela foi, é e sempre será Serra de Leomil. Pois é, mas actualmente não se encontra qualquer documento que oficialize esta designação generalizada. Em que ficamos, Nave ou Leomil? Toda a gente sabe que Nave não é Serra, mas se antigamente os habitantes de Leomil, lhe colocaram o nome de Nave em alusão ao planalto, penso que não há o mínimo problema em chamar Nave à Serra que é de Leomil. Para complicar um pouco mais a questão vejamos a Corografia Portugueza e Descripçam Topográfica do Famoso Reyno de Portugal do Pe. Carvalho da Costa (1708): " Tres legoas para o nascente ao pé da Serra Lobagueira, em lugar plano tem assento a Vila de Leomil, cercada dos rios Carvalhal e Vidual (...)".

 

Diz-se que como Serra, ela não é propriedade e privilégio de Leomil. Então é de quem? Indubitavelmente a Serra de Leomil é hoje oficialmente consagrada e universalmente aceite. Passou a ser uma das Serras de Portugal e uma referência para todo o concelho e para a região. Lobagueira, Nave ou simplesmente Leomil, são nomes pelos quais foi denominada ao longo do tempo. Maior certeza ainda, é o facto de pertencer à nobre Vila que é Leomil, e a comprovar está a vasta gama de documentação existente.

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